quarta-feira, 13 de março de 2013

Dicas: Ler para Escrever


Ler bastante faz um ótimo escritor?
Bem, não é uma verdade absoluta.
Ler e Escrever são duas coisas bem diferentes, embora ligadas em sua essência.
Já disse aqui no blog sobre a importância em saber ler, de forma lenta e atenta é o que faz a diferença. Às vezes uma pessoa leu três livros na vida, mas leu atentamente, absorvendo o máximo da leitura, estudando como o autor encontrou a solução para descrever, ambientar, desenvolver uma cena, um diálogo, um clima na narrativa, o quão foi realista e convincente, e etc. Essa pessoa estará apta a escrever melhor que outra pessoa qualquer que lê cinquenta livros por ano, mas não absorve nada! Lógico que há exceções, e lógico que a bagagem de conhecimento de cada um tem seu peso, mas no geral é o que acontece. Existem pessoas que sabem tudo de gramática e não conseguem desenvolver uma história, e há pessoas que não são boas em gramática, mas sabe escolher bem as palavras e desenvolver uma história... não há regra; agora, o melhor conselho é desenvolver bem os dois. Pratique a leitura atenta, e use à seu favor.
Você pode aprender muito tomando os livros como exemplo. Ler por prazer em primeiro lugar, mas consciente do estilo que o escritor emprega, a dicção, o casamento das palavras, o modo das frases formadas, como a informação está sendo transmitida, como estruturar uma trama, gerando detalhes e etc. Embora isso ajude muito a única maneira de saber o que absorveu em sua análise é escrevendo. Só aprende escrevendo. Escrever é um árduo trabalho que exige tempo, organização, repetição, edição, erros, melhoramentos, reescrever tudo novamente e paixão. Eduardo Spohr diz que o livro começa a ser escrito quando é reescrito, e ele está certo. Ainda sobre ler para escrever, quando li o livro de Charles Kiefer, Para ser Escritor, fiquei estupefato com o processo que ele usa para ler e buscar inspiração que é justamente o que sempre fiz. Para Kiefer, ler é uma atividade anárquica; e nunca imaginei que outro ser humano do planeta pensasse e agisse da mesma forma que eu. Fiquei contente em saber que não sou o único doido. Para entender melhor o que fazemos, usarei a explicação de Kiefer, que eu não encontraria melhores ou diferentes palavras que explicasse o processo maluco que nos submetemos.
"Meu prazer pelo fragmentado, pelo aleatório, pelo disperso é tão grande que raramente leio um livro de uma assentada. Prefiro ler trechos aqui, capítulos ali, de obras variadas, de gêneros díspares. Prefiro ler 30 , 40 livros simultaneamente do que um só."
Para esclarecer melhor... eu também gosto de buscar inspiração, mas não em obras inteiras e sim em passagens de obras que considero formidáveis. Trechos que me inspiram e são bem escritos, pois não existe uma obra inteira bem escrita do início ao fim, mas há trechos que nos tiram o fôlego, e as obras com mais trechos desse tipo, são eternamente lembradas. Assim, praticamente tenho trechos de vários autores como deuses a serem alcançados, reproduzidos, espelhados.

Gostaria de acrescentar uma coisa óbvia também, mas que passa desapercebida por muitas pessoas que escrevem sobre "como escrever bem". Escrever um romance de ficção não é o mesmo que escrever um texto didático, técnico, ou um artigo de jornal, e uma pessoa saber escrever um texto técnico não implica que ela saberá escrever bem um romance, e vice versa. Isso acontece com mais frequência do que se imagina. Seria o mesmo que esperar que um músico de heavy metal tocará música clássica no violão esmeradamente bem. O mesmo acontece na escrita e na conversação. Uma pessoa que se expressa bem numa conversa não quer dizer que escreverá maravilhosamente bem, até porque a área de desenvolvimento do cérebro para escrever e para falar são áreas diferentes também, e é possível uma pessoa desenvolver mais uma em detrimento da outra. Então, nada de preconceitos.

Chegamos ao ponto onde seu trabalho está sendo desenvolvido e esbarrado num bloqueio mental. Nenhuma palavra sai de você, as folhas permanecem em branco agonizando, o traço da tela de texto se torna imóvel. O que fazer? 
Nesse instante você vai ler.
Leia os livros que admira, procurando nas palavras do autor as suas próprias palavras. Sempre que terminamos um livro, não significa que nunca mais voltaremos a ele; é muito importante voltar aos livros que te inspiraram. A maior verdade é que graças aos livros que leu e gostou que hoje você lamenta estagnado em frente da tela do programa de texto que não evolui, estagnado. A gente decide escrever porque lemos um bom livro, um livro que nos tocou. Nada mais justo do que voltar ao ponto que te despertou essa ânsia por escrever. 

Tenha sempre em mãos os livros que te inspiram.

Não existem fórmulas mágicas. Não existem regras para escrever e as dicas que encontrei e que costumo repassar são para serem seguidas ou não. O que funciona para uns, não necessariamente funcionará para outros. Nunca deixe de ler coisas novas. Não quero ser interpretado por estar dizendo para ler sempre os mesmos livros. Leia coisas novas, diferentes, pois até um livro que você não gostou te acrescentará algo. Muitas vezes te acrescenta algo e você nem percebe o que de fato lhe acrescentou, mas com certeza acrescentou. O desafio é ampliar a coleção de livros que realmente lhe inspiram a encontrar suas próprias palavras.

Para fechar, só há uma regra. Não há regras. Não há fórmulas milagrosas que todos os grandes escritores usaram. Cada escritor deve encontrar o seu meio para criar, e aqui o objetivo é compartilhar ideias e visões para que talvez outra pessoa possa descobrir que tal sistema funciona para ela também e assim uns ajudarem aos outros.