segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

H.P Lovecraft para Escritores.

"Tudo o que um conto maravilhoso almeja é pintar o retrato convincente de um determinado sentimento humano." H.P Lovecraft.

H.P Lovecraft é um ícone do suspense e terror. Já inserido tal como literatura clássica, porém ainda bastante disperso no consumo mainstream, seus contos de fantasia e terror psicológico (convincentes e realistas até onde a fantasia pode ser escrita) não chegam ao público em geral. Embora, sempre que uma história de terror é contada pelo cinema, literatura ou outras vias de expressões artísticas, Lovecraft é invocado em referências e inspirações tanto quanto Edgar Allan Poe. Sua influência é tão grande que criou-se uma mitologia em toda sua obra. Mesmo que seus contos não sejam claramente ordenados como as sequências de livros que invadem as livrarias nos dias de hoje, quanto mais se lê Lovecraft, mais seu universo ganha vida e riqueza.
O domínio da escrita é facilmente percebido em sua obra. O maior crítico de Lovecraft é ele mesmo. Ele deixa isso bem claro em muitas de suas cartas, e em muitas delas, Lovecraft dá uma aula e dicas de estrutura, organização e desenvolvimentos literários. Segundo ele, raramente usou o mesmo método para elaboração de seus contos.  Podemos assim, aprender um pouco com ele, seja o gênero que for, todos precisamos saber organizar uma ideia para explorarmos com maestria depois.
"Tudo depende das circunstâncias individuais. A única coisa que não faço jamais é sentar e pegar uma caneta com propósito deliberado de escrever. O resultado é sempre medíocre. As únicas histórias que escrevo são aquelas cujas ideias centrais, figuras e atmosferas me ocorrem de forma espontânea. Essas ideias, figuras e atmosferas vêm de todas as fontes imagináveis. Sonhos, leituras, acontecimentos cotidianos, visões inusitadas, ou ainda de origens tão remotas e fragmentárias que não sou capaz de identificá-las."
Acho interessante a maneira que ele assume não escrever. É sempre difícil estipular regras para formulações da criatividade humana. Criatividade é algo muito pessoal, e de tudo que foi dito por ele, fica claro que ele só escreve as cenas que se revelam em sua mente. Se pararmos para analisar, sentar e ficar imaginando uma história do nada é extremamente difícil, e desse jeito até pode acontecer de conseguir extrair algo de sua imaginação, mas as melhores histórias vem à nossa mente como um flash, e consequentemente, quando menos se espera. Comigo acontece exatamente o mesmo. Se pegarmos as dicas de escrita criativa de H.P Lovecraft, isso ficará mais claro e fará mais sentido também.

 Vamos às dicas:


"...começo com uma ambientação ou uma ideia ou uma imagem que desejo expressar e então trabalho-a na minha imaginação até que me ocorra uma forma plausível de materializá-la em uma cadeia de acontecimentos dramáticos passível de ser registrada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições básicas ou das situações que mais se prestam à ambientação ou à ideia ou à imagem e então começo a especular sobre as explicações lógicas e racionais para a ambientação ou ideia ou imagem, tendo em vista a condição básica ou a situação escolhida. O processo de escritura, claro, é tão variado quanto a escolha do tema e da ideia inicial; mas se as histórias de todos os meus contos fossem analisadas, é possível que as seguintes regras pudessem ser abstraídas a partir do procedimento padrão:"
  1.  Prepare uma sinopse ou um cenário para os acontecimentos na ordem em que ocorreram - não na ordem da narrativa. Descreva com riqueza suficiente para contemplar todos os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e estimativas das consequências às vezes são desejáveis nessa estrutura temporária.  
  2.  Prepare uma segunda sinopse ou cenário para os acontecimentos - agora na ordem da narrativa (não na ordem de ocorrência), com grande riqueza de detalhes e notas relativas a mudanças de perspectiva, ênfase e clímax. Faça as alterações necessárias na sinopse original caso essa mudança aumente o impacto dramático ou a eficácia geral do conto. Interpole ou exclua incidentes à vontade - não se prenda jamais à ideia original, mesmo que o resultado seja um conto absolutamente diferente do planejado. Faça acréscimos e alterações na medida em que ocorrerem durante o processo de formulação.
  3. Escreva todo o conto - depressa, com fluência e sem tecer muitas críticas - de acordo com a segunda sinopse, na ordem da narrativa. Altere os incidentes e o enredo sempre que o andamento do processo sugerir alterações, sem jamais se ater a qualquer esquema prévio. Se em algum ponto o desenvolvimento revelar novas oportunidades de efeito dramático ou de narração vívida, faça os acréscimos necessários - depois volte atrás e reconcilie as partes preexistentes com o novo plano. Acrescente e exclua seções inteiras de acordo com o necessário ou com o desejado, tentando diferentes inícios e fins até encontrar o melhor arranjo. Certifique-se de que todas as referências ao longo da história estejam completamente adaptadas ao esquema final. Remova todas as excrescências possíveis - palavras, frases, parágrafos ou mesmo episódios e elementos inteiros -, tomando as precauções habituais em relação a conciliar todas as referências.
  4. Revise todo o texto, com especial atenção ao vocabulário, à sintaxe, ao ritmo da prosa, à proporcionalidade das partes, às sutilezas do tom, à graça e ao poder persuasivo das transições (de uma cena a outra, da ação lenta e detalhada à ação rápida e superficial e vice-versa... etc., etc., etc.), à eficácia do início, do fim, dos clímax etc., ao suspense e ao interesse dramático, à plausibilidade, à atmosfera e a vários outros elementos.
  5. Prepare uma cópia datilografada - acrescentando revisões finais conforme o necessário.
"O primeiro estágio muitas vezes é puramente mental - trabalho com um conjunto de variáveis e acontecimentos na minha imaginação e não escrevo nenhuma palavra até que me sinta capaz de preparar uma sinopse detalhada dos acontecimentos na ordem da narrativa. Mas é verdade que às vezes começo a escrever antes mesmo de saber como desenvolver a ideia - assim, este começo constitui um problema a ser motivado e explorado. ...Eis as regras e padrões que sigo de forma consciente ou inconsciente."
"O verdadeiro escritor precisa esquecer os editores e as possíveis audiências, resignar-se a vendas muito infrequentes e trabalhar apenas a fim de expressar-se e satisfazer seus próprios critérios ficcionais. O comércio e a literatura decente não tem nenhum ponto em comum a não ser por acidente. É assim que as coisas são."